14.12.16

Fernando Pessoa: "Análise"




Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.



PESSOA, Fernando. "Análise". In:_____. "Cancioneiro". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

4 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


grato por publicar esse belíssimo poema do grande poeta Fernando Pessoa! Viva!Viva!


Beijos,
Adriano Nunes

Anônimo disse...

Salve!
Conheçe alguma tradução para o português de "Patmos" de Holderlin?
Grande Abraço!

Antonio Cicero disse...

Conheço duas traduções para o português de "Patmos", de Hölderlin. Os livros em que se encontram são:

HÖLDERLIN, Friedrich. Canto do destino e outros cantos. Org., trad. e ensaio de Antonio Medina Rodrigues. São Paulo: Iluminuras, 1994.

HÖLDERLIN, Friedrich. Poemas. Seleção e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Alântica, 1959.

Anônimo disse...

Obrigado pelas indicações! Agora vou continuar sofrendo com a prosa bárbara dos professores universitários que se debruçaram sobre “Patmos”... Às vezes, penso que essa gente estranha jamais deveria chegar perto de poemas… Me dá vontade de “colocar Platão de ponta-cabeça” e expulsar da cidade os professores universitários... Novamente, obrigado! Grande Abraço!