17.1.18

Por que a esquerda brasileira está muda diante da fome que mata crianças na Venezuela?



Li o seguinte texto hoje, numa página (http://www.ihu.unisinos.br/575300-por-que-a-esquerda-brasileira-esta-muda-diante-da-fome-que-mata-criancas-na-venezuela) do site do Instituto Humanitas Unisinos, de Porto Alegre:


Por que a esquerda brasileira está muda diante da fome que mata crianças na Venezuela?

Mais do que nunca é necessário que a esquerda social, uma vez que a ideológica já perdeu seu sentido, se sensibilize com aqueles que vivem momentos dramáticos.
O comentário é de Juan Arias, jornalista, publicado por El País, 16-01-2018.

Acredito que não exista nada mais doloroso do que ver uma criança morrer de fome, principalmente se isso acontece em um país que, como a Venezuela, tem as maiores reservas de petróleo do mundo e se proclama socialista. Não deixa, portanto, de causar estranheza o silêncio da esquerda brasileira diante dessas mortes infantis por falta de comida no país amigo. O Partido dos Trabalhadores quer voltar ao poder com Lula. Tem todo o direito de tentar fazer isso democraticamente, mas antes terá de nos dizer o que pensa sobre o que a imprensa mundial está denunciando a respeito da Venezuela. Semanas atrás, a Folha de S. Paulo escreveu: “A fome persegue a Venezuela há anos. Agora está matando as crianças do país em um ritmo alarmante”. O jornal relata como uma equipe do The New York Times publicou no Natal uma longa investigação realizada durante cinco meses em 21 hospitais de 17 estados venezuelanos em que médicos e enfermeiros confirmaram que as crianças estão morrendo de fome e desnutrição por falta de comida.

A ONG Provea, defensora dos direitos humanos, denunciou por sua vez, segundo O Estado de S. Paulo, que os venezuelanos mais pobres, diante da crise alimentar em uma economia que, como escreveu o EL PAÍS, “está em coma”, com uma inflação de cinco dígitos, são obrigados a comer uma espécie de salsicha para cães, feita com restos de carne e gordura sem controle sanitário, ou ração para galinhas que serve como substituto do arroz. Lula, que apoiou as campanhas de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, chegou a afirmar que na Venezuela havia “democracia em excesso”. A esquerda brasileira ainda continua pensando assim? O que existe é a fome que mata, enquanto aqui no Brasil o que começa a preocupar é o excesso de peso e a obesidade, que já atingem 53% da população, incluindo as crianças.

É verdade que muitas vezes o grande público, especialmente o menos culto, não se sensibiliza com a falta de democracia em um país e, às vezes, até sente saudade das ditaduras, mas o que não deixa de doer em ninguém é a fome de uma criança. O mundo está vivendo uma guinada para a extrema direita com contornos de novos e perigosos autoritarismos. Mais do que nunca é necessário que a esquerda social, uma vez que a ideológica já perdeu seu sentido, se sensibilize com aqueles que vivem – como na Venezuela – momentos dramáticos, não por não terem papel higiênico, mas porque lá se morre de fome lá. Fechar os olhos a essas tragédias é trair os valores da esquerda sensível ao pranto dos desamparados.

Só quem sentiu na carne o ferrão da fome pode entender o que significa para os pais ter de enterrar seu pequeno morto por falta de comida, como no caso da Venezuela que a Folha conta. Sabem muito bem disso aqueles que conseguiram escapar de um campo de concentração nazista. Um desses sobreviventes, brasileiro, que veio almoçar em nossa casa quis comer apenas o pão que minha mulher havia feito. Ele nos contou que a fome que mastigou no inferno do campo era tanta que, até hoje, sua iguaria preferida é um pedaço de pão. Eu mesmo, que sou um sobrevivente da fome que açoitou os espanhóis durante a Guerra Civil de 1936 e o período do pós-guerra, posso garantir que poucas coisas são tão duras para uma criança como foi para mim e meus dois irmãos ir dormir com fome. Durante muito tempo, e até na idade adulta, sonhava, como um pesadelo, com pão quente saindo do forno.

São lembranças que hoje se aglomeram na minha memória quando leio que na irmã e rica Venezuela existem crianças que morrem de fome ou são forçadas a disputar comida com cães e galinhas. E assim como me machuca a fome delas, me machuca o silêncio da esquerda rica brasileira que, enredada em suas pequenas disputas políticas, não consegue levantar a voz para denunciar essa tragédia. Ou a esquerda ainda pensa que o que sobra na Venezuela é a democracia? O que sobra hoje é o pranto daqueles que não conseguem comida para seus filhos.

16.1.18

Wislawa Szymborska: "Discurso na seção de achados e perdidos": trad. de Regina Przybycien



Discurso na seção de achados e perdidos

Perdi algumas deusas no caminho do sul ao norte,
e também muitos deuses no caminho do oriente ao ocidente.
Extinguiram-se para sempre umas estrelas, abra-se o céu.
Uma ilha, depois outra mergulhou no mar.
Nem sei direito onde deixei minhas garras,
quem veste meu traje de pelo, quem habita minha casca.
Morreram meus irmãos quando rastejei para a terra,
e somente certo ossinho celebra em mim este aniversário.
Eu saía da minha pele, desbaratava vértebras e pernas,
perdia a cabeça muitas e muitas vezes.
Faz muito que fechei meu terceiro olho para isso tudo.
Lavei as barbatanas, encolhi os galhos.

Dividiu-se, desapareceu, aos quatro ventos se espalhou.
Surpreende-me quão pouco de mim ficou:
uma pessoa singular, na espécie humana de passagem,
que ainda ontem perdeu somente a sombrinha no trem.




SZYMBORSKA, Wislawa. "Discurso na seção de achados e perdidos". Org. e trad. por Regina Przybycien. In:_____. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

14.1.18

William Carlos Williams: "Complete destruction" / "Destruição completa"



Destruição completa

Foi um dia gelado.
Enterramos a gata
pegamos a caixa dela
e a incendiamos
lá atrás, no quintal.
As pulgas que escaparam
à terra e ao fogo
morreram de frio.




Complete destruction

It was an icy day
We buried the cat
then took her box
and set fire to it
in the back yard
Those fleas that escaped
earth and fire
died by the cold




WILLIAMS, William Carlos. "Complete destruction" / "Destruição completa". In: ENZENSBERGER, Hans Magnus (org.). Museum der modernen Poesie. Frankfurt: Suhrkamp, 2002.



12.1.18

Mulheres liberam outro discurso



Contra os absurdos ataques sofridos pelo excelente texto publicado no jornal Le Monde de 9 do corrente e escrito por Peggy Sastre, Catherine Millet, Sarah Chiche, Catherine Robbe-Grillet e Abnouse Shalmani -- texto assinado por personalidades admiráveis como Catherine Deneuve -- resolvi republicá-lo neste blog.



Mulheres liberam outro discurso

A violação é um crime. Mas a galanteria não é uma agressão machista, nem a paquera insistente ou desajeitada um delito


Em consequência do caso Weinstein, houve uma legítima tomada de consciência das violências sexuais exercidas contra as mulheres, particularmente no campo profissional, onde alguns homens abusam do seu poder. Ela era necessária. Mas essa libertação do discurso transforma-se hoje no seu oposto: somos intimadas a falar “corretamente”, a silenciar sobre o que incomoda, e aquelas que se recusam a se dobrar a tais injunções são consideradas traidoras, cúmplices!

Ora, faz parte do puritanismo apropriar-se, em nome de um pretenso bem geral, dos argumentos da proteção das mulheres e de sua emancipação para melhor acorrentá-las ao estatuto de eternas vítimas, de pobrezinhas sob o domínio de falocratas demoníacos, como nos velhos e bons tempos da feitiçaria.

De fato, #metoo conduziu, na imprensa e nas redes sociais, uma campanha de delação e de acusação pública de indivíduos que, sem que lhes fosse dada a mínima possibilidade de responder ou de se defender, foram postos exatamente no nível de agressores sexuais. Essa justiça expeditiva já fez suas vítimas: homens sancionados no exercício de sua profissão, obrigados a demitir-se etc., quando seu único erro foi ter tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falado de coisas “íntimas” durante um jantar profissional ou enviado mensagens com conotação sexual a uma mulher que não correspondia ao desejo deles.

Essa ânsia de enviar “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se autonomizarem, serve realmente aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, aos extremistas religiosos, aos piores reacionários e àqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da correspondente moral vitoriana, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com caras de adultos, necessitando de proteção.

Por outro lado, os homens são convocados a aceitar sua culpa e de reconhecer, no fundo de sua consciência retrospectiva, um “comportamento inadequado” que possam ter tido dez, vinte ou trinta anos atrás, e do qual deveriam agora se arrepender. A confissão pública, a incursão de promotores autoproclamados na esfera privada: eis que se instala uma espécie de clima de sociedade totalitária.

A onda puritana parece não ter limites. Aqui, censuramos um nu de Egon Schiele em um cartaz; ali pedimos a remoção de uma pintura de Balthus de um museu, com base em que seria uma apologia da pedofilia; na confusão absurda do ser humano com sua obra, exige-se a proibição da retrospectiva de Roman Polanski na Cinémathèque e obtém-se o adiamento da de Jean-Claude Brisseau. Uma universitária julga o filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni “misógino” e “inaceitável”. À luz desse revisionismo, John Ford (The prisoner of the desert) e até mesmo Nicolas Poussin (L’enlèvement des sabines) estão ameaçados.

Já há editores nos pedindo a algumas de nós que façamos nossos personagens masculinos menos “sexistas”, que falemos de sexualidade e de amor com menos desenvoltura ou ainda que tornemos mais evidentes os “traumatismos sofridos pelos personagens femininos”!

Ruwen Ogien defendia a liberdade de ofender como indispensável à criação artística. Do mesmo modo, defendemos a liberdade de importunar como indispensável à liberdade sexual. Estamos hoje suficientemente informados para reconhecer que o impulso sexual é, por natureza, ofensivo e selvagem, mas também somos suficientemente clarividentes para não confundirmos uma abordagem desajeitada com uma agressão sexual. Acima de tudo, estamos conscientes de que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e ter prazer em se tornar o objeto sexual de um homem, sem ser nem uma vagabunda nem uma vil cúmplice do patriarcado. Ela pode cuidar para que o seu salário seja igual ao de um homem e considerar que sofrer uma esfregadela no metrô não é o resultado de uma agressividade incontida, mas a expressão de grande miséria sexual, ou mesmo de coisa alguma. À beira do ridículo, um projeto de lei na Suécia quer impor um consentimento explicitamente notificado a qualquer candidato a uma relação sexual! Mais um pouco e cada adulto que queira dormir com outro deverá previamente consultar, através de determinados aplicativos de seus celulares, a lista de atos sexuais aceitos pelo seu parceiro (ou parceira) e a de atos rejeitados por ele (ou por ela).

Enquanto mulheres, não nos reconhecemos nesse feminismo que, além de denunciar de abusos de poder, assume a feição de um ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer “não” a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de incomodar. E consideramos que, para reagir a essa liberdade de incomodar, não é necessário fazer o papel de vítima.

Para aquelas de nós que escolheram ter filhos, consideramos que é mais sábio educar nossas filhas de modo que estejam suficientemente informadas e conscientes para poderem viver plenamente suas vidas sem se deixarem intimidar ou culpabilizar. Os acidentes que podem tocar o corpo de uma mulher não atingem necessariamente sua dignidade e não devem, por mais difíceis que às vezes sejam, necessariamente fazer dela uma vítima perpétua.  Pois não somos redutíveis a nossos corpos. Nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que prezamos não existe sem riscos e responsabilidades.

11.1.18

Friedrich Nietzsche: "Vademecum -- Vadetecum": trad. de Paulo Quintela



Vademecum – Vademecum

Atraem-te o meu modo e a minha língua?
Segues-me? Vens atrás de mim?
Segue fiel atrás de ti mesmo: –
Assim me seguirás – devagar! devagar!



Vademecum – Vadetecum

Es lockt dich meine Art und Sprach,
Du folgest mir, du gehst mir nach?
Geh nur dir selber treulich nach: –
So folgst du mir – gemach! gemach!




NIETZSCHE, Friedrich. "Vademecum -- Vadetecum". In: Poemas. Trad. e org. por Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1986. 


9.1.18

Blaise Cendrars: "Aux 5 coins" / "Nos 5 cantos": trad. de Antonio Cicero



Nos 5 cantos

Ousar e fazer barulho
Tudo é cor movimento explosão luz
A vida floresce às janelas do sol
Que se funde em minha boca
Estou maduro
E caio translúcido na rua

Você fala, meu caro

Não sei abrir os olhos?
Boca de ouro
A poesia está em jogo




Aux 5 coins

Oser et faire du bruit 
Tout est couleur mouvement explosion lumière 
La vie fleurit aux fenêtres du soleil 
Qui se fond dans ma bouche 
Je suis mûr
Et je tombe translucide dans la rue 

Tu parles, mon vieux

Je ne sais pas ouvrir les yeux ? 
Bouche d'or 
La poésie est en jeu 




CENDRARS, Blaise. "Aux 5 coins". In:_____. Du monde entier. Poésies complètes 1912-1924. Paris: Gallimard, 1967.


7.1.18

Antonio Carlos Secchin: "Autorretrato"



Autorretrato

               a Flávia Amparo

Um poeta nunca sabe
onde sua voz termina,
se é dele de fato a voz
que no seu nome se assina.
Nem sabe se a vida alheia
é seu pasto de rapina,
ou se o outro é que lhe invade,
numa voragem assassina.
Nenhum poeta conhece
esse motor que maquina
a explosão da coisa escrita
contra a crosta da rotina.
Entender inteiro o poeta
é bem malsinada sina:
quando o supomos em cena,
já vai sumindo na esquina,
entrando na contramão
do que o bom senso lhe ensina.
Por sob a zona da sombra,
navega em meio à neblina.
Sabe que nasce do escuro
a poesia que o ilumina.



SECCHIN, Antonio Carlos. "Autorretrato". In:_____. Desdizer. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.