8.12.16

Carlos Nejar: Casida das coisas da alma



Casida das coisas da alma

As cinzas do amor só ardem
se na memória se abrasam.
Inda que as coisas em alma
se entendam pela metade.
Mas onde estender as asas
de um sonho que se entreabre?
O que é fogo amor acalma
e o que é centelha se apaga.
E se o sol se move em nada,
a luz é onda parada.
As cinzas do amor só ardem
onde a infância não se acaba.



NEJAR, Carlos. "Casida das coisas da alma". In:_____. Quarenta e nove casidas e um amor desabitado. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2016.

6.12.16

Trecho de "Vinícius de Moraes, um rapaz de família", de Suzana Moraes

Vejam, no belo filme de Susana Moraes, "Vinícius de Moraes, um rapaz de família", uma conversa de Vinícius e Ferreira Gullar sobre o "Poema sujo":



4.12.16

Ferreira Gullar: "Perplexidades"




Perplexidades

a parte mais efêmera
                   de mim
é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto

é estranho!
e mais estranho
               ainda
               me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo

e mais estranho ainda
             que sabê-lo
é que
         enquanto dura me é dado
         o infinito universo constelado
         de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
                  fulgindo no presente do passado



GULLAR, Ferreira. "Perplexidades". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

2.12.16

Friedrich Hölderlin: "An die jungen Dichter" / "Aos poetas jovens": trad. Paulo Quintela




Aos poetas jovens

Queridos Irmãos! talvez a nossa arte amadureça,
Pois, como o jovem, há muito ela fermenta já,
Em breve em beleza serena;
Sede então devotos, como o Grego o foi.

Amai os deuses e pensai nos mortais com amizade!
Odiai a ebriedade como o gelo! Não ensineis nem descrevais!
Se o mestre vos assusta,
Pedi conselho à grande Natureza!




An die jungen Dichter

Lieben Brüder! es reift unsere Kunst vielleicht,
Da, dem Jünglinge gleich, lange sie schon gegärt,
Bald zur Stille der Schönheit;
Seid nur fromm, wie der Grieche war!

Liebt die Götter und denkt freundlich der Sterblichen!
Haßt den Rausch, wie den Frost! lehrt, und beschreibet nicht!
Wenn der Meister euch ängstigt,
Fragt die große Natur um Rat.



HÖLDERLIN, Friedrich. "An die jungen Dichter" / "Aos poetas jovens". In:_____. Poemas. Seleção e tradução de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântica, 1959.

30.11.16

Ferreira Gullar: "Registro"




Registro

À janela
             de meu apartamento
à rua Duvivier 49
            (sistema solar, planeta Terra,
             Via Láctea)
             limpo as unhas da mão
por volta das quatro e quarenta da tarde
             do dia 2 de dezembro de 2008
enquanto
              na galáxia M 31
a 2 milhões e 200 mil anos-luz de distância
              extingue-se uma estrela




GULLAR, Ferreira. "Registro". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: 2015.

26.11.16

Paulo Bomfim: "Soneto I"





Soneto I

Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.
Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.
Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha
Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.



BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962.

24.11.16

Carlos Pena Filho: "Olinda"




Olinda

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
A linha do horizonte.

As paisagens muito claras
Não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
Ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,
Não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tão verdágua e não se sabe
A não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
Mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
No olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
Que possa haver nas vivendas
Das aves, nas áreas altas,
Muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
Não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
Nem há mar, nem céu, nem velas.

Quando a luz é muito intensa
É quando mais frágil é;
Planície, que de tão plana
Parecesse em pé.



PENA Filho, Carlos. "Olinda". In:_____. Livro Geral. Recife: UFPE, 1969.