23.4.17

"Tudo é irrelevante"


Hoje às 19h, no Espaço Itaú de Cinema 6, no Rio de Janeiro, será exibido, como parte do festival "É tudo verdade", o documentário de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan "Tudo é irrelevante", sobre o grande pensador brasileiro Helio Jaguaribe.



Lêdo Ivo: "Soneto de ninar"



Soneto de ninar

Dorme, oceano.
Minha canção te embala
na treva lacerada
pelas constelações.

Dorme, doce terra impura.
Minha canção te cinge,
leve gesto de amor
na escuridão.

Dorme, vento
que suspende as árvores
no ar.

Durmam até as pedras
repousadas e felizes
em seu sono de pedra.



IVO, Lêdo. "Soneto de ninar". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

21.4.17

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Não torna ao ramo a folha que o deixou"



Não torna ao ramo a folha que o deixou, (28-9-1926)

Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
        Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
        Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
        Deuses em quem o empregue.



PESSOA, Fernando. "Não torna ao ramo a filha que o deixou". In:_____. Poemas de Ricardo Reis. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.

18.4.17

Jorge Luis Borges: "El suicida"



El suicida

No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.




O suicida

Não ficará na noite uma estrela.
Não ficará a noite.
Morrerei e comigo a soma
Do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
Os continentes e as caras.
Apagarei a acumulação do passado. 
Farei pó a história, pó o pó.
Estou olhando o último poente.
Ouço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.



BORGES, Jorge Luis. "El suicida". In:_____. "La rosa profunda". In:_____. Obras completas. 1975-1985. Vol.2. Buenos Aires: Emecé, 1989. 




16.4.17

Ferreira Gullar: "Dois poetas na praia"



Dois poetas na praia

É carnaval,
a terra treme:
um casal de poetas conversa
na praia do Leme!

Falam os dois de poesia
e dos banhistas
que nunca lerão Drummond nem Mallarmé.
– E lerão o meu poema?
pergunta ela.
– Alguém vai ler.
– Pois mesmo que não leia
não vou deixar de dizer
o que vejo nesta areia
que eles pisam sem ver.

E o poeta mais velho
sorri confortado:
a poesia está ali
renascida a seu lado.



GULLAR, Ferreira. "Dois poetas na praia". In:_____. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

12.4.17

Jacques Prévert: "Le cancre" / "Juquinha": trad. de Silviano Santiago


Le cancre

Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le cœur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.



Juquinha

Diz não com a cabeça
diz sim com o coração
diz sim ao que ama
diz não ao professor
está de pé
sendo arguído
e todas as perguntas lhe são feitas
de repente morre de rir
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as armadilhas
e apesar das ameaças do professor
debaixo da vaia dos meninos prodígios
no quadro- negro da desgraça
com giz de todas as cores
desenha o rosto da felicidade.




PRÉVERT, Jacques. "Le cancre" / "Juquinha". Poemas. Seleção e tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

9.4.17

Bill Knott: "Death"


Morte

Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito.
Colocarão minhas mãos assim.
Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo.


Death

Going to sleep, I cross my hands on my chest.
They will place my hands like this.
It will look as though I am flying into myself.



KNOTT, Bill. "Death". In:_____. I am flying into myself: selected poems, 1960-2014. Org. por Thomas Lux. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2017.