25.6.17

Alberto Pucheu: "Viagem aos 18 ou 19 anos"



Viagem aos 18 ou 19 anos

havia uma paisagem de pintura chinesa
ou japonesa, dessas em que o nanquim abre
um vazio branco por toda a montanha
e pelo lago no qual, em tempos passados,
distante, um pescador pescava solitário
em sua canoa, sem mais ninguém por ali.

havia uma floresta em plena cidade
invisível, na qual, em tempos passados,
inadequado à tarefa que lhe fora incumbida,
um temeroso soldado buscava — solitário —
fugir de uma guerra que por ali guerreavam,
alcançando o muro que limitava a mata e ele.

havia, desta vez, não uma imagem ou outra
qualquer, mas somente uma sensação
tão viva e, mesmo, uma certeza (a lhe invadirem)
de ser esta, a atual, sua terceira vida,
ainda que nenhuma dica lhe fosse dada
para ajudá-lo a vivê-la um pouco melhor.

havia, então, a última, que estava por vir,
apenas um brilho de luz prateada, chegando
de todos os lados para se concentrar
em um foco nítida e densamente coeso
que logo explodia, lançando seus estilhaços
excentricamente em todas as direções.




PUCHEU, Alberto. "Viagem aos 18 ou 19 anos". In:_____. para que poetas em tempos de terrorismo? Rio de Janeiro: Azougue, 2017.

24.6.17

Octavio Paz: "Aquí"



Aqui

Meus passos nesta rua
ressoam
           noutra rua
onde
         ouço meus passos
passarem nesta rua
onde
Só é real a névoa




Mis pasos en esta calle
resuenan
             en otra calle
donde
         oigo mis pasos
pasar en esta calle
donde
Sólo es real la niebla.



PAZ, Octavio. "Aquí". In:_____. "Días hábiles". In:_____. Obra poética I (1935-1970). México: FCE, Círculo de Lectores, 1997.

23.6.17

Domício Proença Filho: "Asilo"



Asilo

Se o sonho,
fraturada primavera,
não retorna
O que fazer do inverno?

Ressonhar o verão,
talvez o outono,
saciar-se com o gosto
de alguma brisa
carícia na face rude
do tempo.




PROENÇA FILHO, Domício. "Asilo". In:_____. O risco do jogo. São Paulo: Prumo, 2013.

17.6.17

Manno Góes: "O devido pagamento"

Excelente artigo de Manno Góes, publicado em O Globo de hoje:



O devido pagamento


É fato que a música é elemento primordial na caracterização de uma cultura, de um povo e suas manifestações artísticas. Através de canções, uma nação se expressa, se comunica com o mundo e atrai atenção às características regionais de sua origem. Não há ninguém que não ouça um reggae e não se lembre da Jamaica; um jazz e não se lembre de Nova Orleans; um rock e não se lembre de Londres; uma salsa e não se lembre de Cuba; um samba-reggae e não se lembre da Bahia; um samba ou uma bossa nova e não se lembre do Rio.

A música estabelece identidades culturais próprias, originais, criando padrões de cidadania e aspectos preciosos de influências e significados de uma região.

E por detrás de cada canção há um autor. Uma semente. O autor é a semente. Simples assim. Sem o criador, não haveria Spotify, Apple Music, YouTube, bandas de rock — ou deuses: não haveria Lennon e McCartney. Roberto e Erasmo. Caetano e Gil. Cazuza ou Renato Russo. Felizmente, a lista é quase interminável. Não haveria a quem agradecer pela criação de versos, frases e melodias que transformam gerações. Que mudaram vidas. Porque o papel da arte é esse: transformar. Transformar-se.

Não haveria Semana de Arte Moderna em 22 sem Oswald de Andrade; não haveria tropicália sem os baianos e Oiticica, nem haveria Tom Zé; ou Raul, ou João Gilberto ou Fernando Brant, sem o poder infinito da criação.

Por compreender que a criatividade é o pó mágico do Peter Pan; a asa do avião, o software do aparelho celular, nós, autores, precisamos de coerência e respeito.

Nossa atividade é subjetiva e abstrata. Porém, não há nada mais real e tátil no mundo do que a importância da criação. Não somos autores apenas. Somos atores na construção de um mundo que reconhece que a arte não seria uma das maravilhas do mundo se não existíssemos.

E, mais do que isso: somos humanos. Pessoas com pulmões, coração e sentimentos. Precisamos de oxigênio e água. E comida. E arte. E remuneração digna pelo que fazemos.

Precisamos de compreensão, afagos, carinho. Proteção. Direitos autorais são, antes de tudo, amor à arte. Alegar que é necessário isentar hotéis, motéis e pousadas de pagamentos autorais para impulsionar o turismo — como pretende o PL 3968, da deputada Renata Abreu — é desconectar a cultura do lazer. Segundo o Ecad, a parlamentar é detentora de redes de rádios inadimplentes com os autores; sua iniciativa causará um prejuízo anual aos autores de cerca de R$ 200 milhões. Agir assim é desconhecer que um elemento poderosíssimo de atração turística são justamente a música e as manifestações culturais de um lugar. É contraditório e irresponsável. É afirmar que a música não é tão importante assim. E quem acha que a música não tem tamanha importância no seu poder de atração e sedução comete um grave equívoco.

O Brasil e sua maravilhosa diversidade cultural oferecem atrativos infinitos para quem vem nos visitar. Além de nossas praias, florestas, montanhas, gastronomia, danças, festas, cores e sincretismo religioso, somos um país de intensa produtividade musical. Não cabe aos autores pagar o preço do que não lhes é devido. Nosso turismo precisa de nossa música. E nossos autores precisam ser remunerados por quem oferece suas canções aos turistas.


Manno Góes é compositor


Anna Akhmatova: "Я пришла к поэту в гости" / "Cheguei de visita ao poeta": trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Ditriev



Cheguei de visita ao poeta

                                          Para Alexandre Blok

Cheguei de visita ao poeta.
Meio-dia em ponto. Domingo.
Silêncio na ampla sala,
Além das janelas frio

E um sol cor de framboesa
Sobre farrapos gris de fumo...
E o dono olha calado
Para mim limpidamente!

São tais os olhos que tem
Que ninguém os deve esquecer,
Para mim é melhor, à cautela,
De modo algum os fitar.

Mas será lembrado o diálogo,
O dia fumoso, o domingo
Na casa alta e cinzenta

Às portas de mar do Neva.



Я пришла к поэту в гости.

                                            Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.

И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня.

У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.

Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье,
В доме сером и высоком

У морских ворот Невы.


AKHMATOVA, Anna. "Я пришла к поэту в гости" / "Cheguei de visita ao poeta". Trad.: Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev. In:_____. Poemas. Lisboa: Relógio d'Água, 2003.

15.6.17

Frank O'Hara: "Autobiographia literaria": Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Autobiographia literaria

Quando era menino eu
brincava sozinho num
canto do pátio da escola
sem ninguém.

Odiava bonecas e
odiava jogos, os bichos eram
hostis e os pássaros
fugiam.

Se alguém me procurava
eu me escondia atrás de uma
árvore e gritava "Sou
um órfão."

E olha eu aqui, o
centro de toda beleza!
escrevendo estes versos!
Imagina!




Autobiographia literaria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan."

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!



O'HARA, Frank. "Autobiographia literaria". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.